Uma semana na pele de um cigano

Os ciganos nunca estiveram tão presentes no debate público. Este ano, foram expulsos de França oito mil ciganos romenos mas metade deles já regressou àquele país. Que hipóteses têm os ciganos de ser aceites na Roménia? Percebi a situação, vestindo o traje de cigano durante uma semana: chapéu, camisa colorida, blusão de cabedal e calças de veludo. Deixei crescer o bigode; a pele morena foi Deus que ma deu.

Comecei pela Praça da Universidade [em Bucareste]. Encontrei ali estudantes bêbedos que fizeram troça de mim e me gritaram algumas palavras bem conhecidas da língua cigana: “mucles” (vai-te catar!), “bahtalo” (boa sorte), “sokeres” (como vai isso?). Um loiro alto tirou-me uma fotografia e, depois, fotografou as garrafas pousadas no passeio, os cães e os mendigos. No seu computador, na Escandinávia, a minha foto será provavelmente classificada na secção “Bucharest garbage” [lixo de Bucareste].

Adevarul

Fonte: http://aeiou.expresso.pt/

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Published in: on novembro 14, 2010 at 12:45 pm  Deixe um comentário  

Dez séculos de discriminação

Por Mário de Queiroz, Agência IPS | Tradução: Cauê Ameni


“Enquanto o racismo na América voltou-se contra os antigos escravos africanos e indígenas, o racismo europeu sempre focou em seus antigos escravos ciganos. A atual perseguição na França e Itália confirma este fenômeno”.

A denúncia foi feita pelo antropólogo José Pereira Bastos, professor da Universidade Nova de Lisboa e anfitrião do encontro Ciganos no século XXI, que reuniu em Lisboa, em setembro, as principais organizações mundiais de defesa das comunidades ciganas.

Os membros da reunião anual da Gypsy Lore Society (Sociedade de Tradição Cigana), realizada na capital portuguesa, destacaram em uma resolução que a sociedade antropológica “vê como alarmante a adoção, pelas autoridades francesas e italianas, de uma retórica anti-cigana,.”

Também expressaram sua “redobrada preocupação pela política de expulsão, que pode desembocar em graves consequências para as relações entre as populações majoritárias europeias e as vulneráveis minorias ciganas”, explicou Bastos à IPS.

As políticas contra a população ciganaadotadas pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e pelo primeiro ministro italiano, Sílvio Berlusconi, polarizaram as atenções do encontro da GLS na Universidade Nova de Lisboa, que reuniu organizações de 22 países.

O governo francês começou a implementar, desde agosto, um plano de destruição dos acampamentos ciganos em seu território e de expulsão massiva e forçada de ciganos à Bulgária, Romênia e outros países do leste europeu.

Trata-se de uma ofensiva muito semelhante à realizada pelo governo italiano desde 2008, com a diferença de que Berlusconi emitiu publicamente o seu assim chamado “pacote de segurança”, levando a expulsão de milhares de ciganos de seu território.

Os ciganos são a maior minoria na Europa, com uma população entre 10 e 16 milhões de pessoas — o que não impede sua criminalização e as cíclicas ondas de perseguição.

Na reunião de Lisboa, estiveram presente representantes de grupos vinculados aos ciganosda Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Bulgária, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grã Bretanha, Hungria, Itália, Islândia, Japão, Polônia, Portugal, Romênia, Servia, Suécia, Suíça e Turquia.

José Pereira Bastos frisou que as organizações nunca adotaram posturas no campo estritamente político. Afirmou, porém, que nesta ocasião não podia deixar de criticar as perseguições étnicas à comunidade romena pelos governos de Paris e Roma.

Com 120 anos de existência, a GLS é “a sociedade cientifica mais antiga do mundo na área da antropologia. Nasceu em 1888, em Londres. Em 1989, transferiu sua sede para os Estados Unidos, e desta vez condena as medidas adotadas em França e Itália”, explicou.

O acadêmico recordou que os ciganos foram os escravos da Europa desde que o sultão de Ghazni (região atual do Afeganistão) começou a fazer incursões no norte da Índia, capturando os povos que ali viviam.

No inverno de 1019/1020, o sultão conquistou a cidade sagrada de Kannauj, “nessa época uma das mais antigas e letradas da Índia, capturando milhares de pessoas, e vendendo-as em seguida aos persas”, explicou o antropólogo e ativista. Por sua vez, os persas os venderam para países hoje situados no leste europeu .

“Sabe-se que 2.300 deles foram colocados em uma zona dos principados cristãos ortodoxos da Transilvânia e da Moldávia, que hoje representam dois terços da atual Romênia. Lá, foram convertidos em escravos do príncipe, dos conventos e dos latifundiários rurais”, disse o anfitrião da GLS.

Durante as perseguições do século 15, contra judeus e muçulmanos, começam também a “caçar” os ciganos, “pois eram considerados vagabundos e delinquentes”“Na Alemanha e Holanda, eram exterminados a tiros por caçadores pagos por cabeça”, recordou, para afirmar que “na Europa, o proposito de extermínio dos ciganos sempre foi muito claro”.

A antropóloga Daniela Rodrigues, integrante da organização não-governamental SOS Racismo e participante do encontro, assegurou à IPS que as expulsões dos ciganos na região da França e Itália correspondem a “uma estratégia política populista”.

Daniela trabalha na promoção de escolarização da população infantil cigana, em Portugal. Explicou que uma de suas principais tarefas é “a mediação com as famílias, para incentivá-las a que enviem seus filhos as escolas”.Pois “a baixa escolaridade cigana tem a ver também com sua própria percepção, onde muitos deles pensam que ir a escola os fazem perder sua indenidade étnica”.

Este fenômeno “é muito mais frequente entra as meninas que entre os meninos. Quando uma cigana tem um alto nível educativo, sua própria comunidade começa a dizer que ela já deixou de ser cigana, olhando a com um certo desprezo”, detalhou.

Daniela assegurou que em Portugal “existe também uma discriminação contra os ciganos, especialmente por parte da policia, que quando faz vistorias nas feiras, seleciona preferencialmente os comerciantes romenos”.“Mas a diferença com a França e Itália, é que as operações para o controle de estrangeiros indocumentados não os têm como alvos principais”, explicou.

Nos casos francês e italiano, “ao invés de fazer um controle de imigração em geral, com todos indocumentados, o que fazem são operações contra uma minoria étnica especifica, que obedece a uma estratégia populista”, completou Rodrigues.

Outra diferença fundamental é que Portugal “optou por adotar um sistema de bairros populares mistos, construídos com a perspectiva de que os ciganos convivam com africanos, brasileiros e portugueses brancos e mestiços. Há menos descriminalização, à medida em que crescem juntos”, sublinhou.

Num documento apresentado no encontro, o espanhol Santiago González Avión, diretor na Galícia da Fundação Secretariado Gitano (FSG), colocou o dedo na ferida sobre as divisões entre as próprias comunidades ciganas.

“Entre os ciganos de nacionalidade espanhola, a fragmentação é forte. Galegos e castelhanos dividem-se. E há discriminação também entre os ciganos transmontamos, de nacionalidade portuguesa, e os espanhóis, apontou González.

O documento também denuncia as condições de precaridade social, como a pobreza econômica e a exclusão social destes grupos.

O diretor da FSG lamenta que “os ciganos do leste europeu não tenham estabelecido laços mais fortes com as populações restantes. Produz-se uma fraqueza para o movimento cigano de se articular para reivindicar direitos de cidadania e políticas inclusivas.”

“São as politicas gerais, de caracter inclusivo, as que maiores efeitos tinham na melhora das condições de vida e no reconhecimento dos direitos das popuplações ciganas”, explica.

E estes projetos de inclusão “promovem o que se conhece pela lógica do acesso, mas não a lógica de enraizamento: sentir como suas políticas e incorporá-las as agendas pessoais e às estratégias de grupo”, conclui González.

 

Fonte: http://www.outraspalavras.net/

Published in: on outubro 20, 2010 at 3:56 pm  Deixe um comentário  

“Sou cigano. Tenho de provar que não sou ruim”

A relação dos ciganos com a comunidade maioritária teima em avançar lentamente. De um lado mantém-se o medo de perder identidade, do outro perpetuam-se mitos e ideias feitas. O desconhecimento leva a um virar de costas que já dura há cinco séculos.
Na Feira de Gondomar, a família Coutinho toma conta de um dos corredores centrais. São 11 irmãos ciganos, quase todos no negócio da venda de roupa. Entre os pregões que prometem “tudo a dois euros” ou afiançam que “só não leva quem for tolo”, o repatriamento de ciganos ilegais em França é tema de conversa recorrente. Ouve-se que “eles não estão a estorvar ninguém”, que “cada um tem direito à sua etnia” e que “é racismo em força, mesmo”.

Joel Coutinho, um dos 11 irmãos, é membro da União Romani Portuguesa. Esteve presente numa manifestação contra as políticas francesas, em Lisboa, no início de Setembro, “porque é preciso acabar com esta perseguição dos ciganos, que dura há séculos”.

Joel teme que o que está a acontecer em França gere onda anti-cigana. Considera, por isso, urgente que a comunidade aprenda a defender-se pela lei: “Dizem que os ciganos são maus. Não são, mas pensam que com a violência resolvem as coisas… e quando usam a violência perdem a razão”.

Ciganos entre nós

“Se não comes a sopa, vem o cigano e leva-te”
Quinhentos anos depois da chegada dos primeiros ciganos a Portugal, a relação com a comunidade maioritária teima em avançar lentamente. Há um ano à frente do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), Rosário Framhouse identifica, de parte a parte, “uma relação de tensão, de desconfiança, de medo”.

A comunidade maioritária cresceu a ouvir “se não comes a sopa, vem o cigano e leva-te”; do outro lado, grande parte da comunidade cigana continua a fechar-se, “com receio de perder a identidade”, passando ao lado das ferramentas “que lhes permitiriam defender essa identidade”, sublinha Farmhouse.

Não se sabe quantos ciganos vivem em Portugal. Estima-se que sejam entre 40 e 50 mil, mas a Constituição Portuguesa não permite identificar a etnia no registo. Sem números concretos quanto à escolaridade, condições de habitação, criminalidade, os mitos e preconceitos têm todo o espaço para crescer.

A dirigente do ACIDI aponta um exemplo: “Não é verdade que todos os ciganos recebem Rendimento Social de Inserção (RSI). Não chegam a 50% as famílias que recebem”. Dados do Instituto de Segurança Social relativos a Dezembro de 2008 indicam que a comunidade cigana representa 3,7% do total das famílias beneficiárias deste apoio financeiro do Estado.

“Somos o produto da nossa sociedade”
Camuflados na massa anónima, vão-se multiplicando casos como o de Hélio Serrano, 29 anos, a estagiar numa sociedade de advogados. Cresceu com os pais e os quatro irmãos num bairro de barracas perto do estádio de Alvalade. Teve “a sorte de ter um pai e uma mãe que trabalharam desde sempre” e, quando tinha 11 anos, mudaram-se para um apartamento em Loures, o que permitiu a Hélio e aos irmãos continuar a estudar.

Os pais são feirantes e Hélio sempre os acompanhou nas vendas. Foi assim que conseguiu ir pagando o curso e as contas da casa desde que se casou, aos 23 anos, com uma cigana de 18 anos. Hoje têm duas gémeas de cinco anos e uma filha ainda de meses.

“Tive preferência em casar dentro do grupo”, conta Hélio, porque “viver como cigano é viver de acordo com as regras e costumes”. São marcas de identidade que nunca escondeu – “ser cigano é um orgulho, as pessoas não compreendem isto”.

Mas Hélio também admite que não tem um percurso comum e que o momento em que se separou da comunidade determinou as oportunidades que se abriram. Às vezes questiona-se: “Se eu tivesse vivido com os ciganos, não tinha chegado a este patamar. Nós somos o produto da nossa sociedade, não é…”.

Hélio habituou-se a não usar a etnia como desculpa, mas sabe que vem aí um grande obstáculo. Para arranjar um emprego, “não parto em igualdade com os meus pares, porque primeiro vou ter de provar que não sou ruim”.

“E se ninguém dá emprego ao cigano?”
A entrada no mercado de trabalho é um dos maiores entraves à integração da comunidade cigana. Fora do circuito da venda ambulante, poucos empregos lhes são confiados. Para António Pinto Nunes, presidente da Federação das Associações Ciganas Portuguesas, “o medo de muitos ciganos é tirar o filho do negócio para ele estudar” e temer que esse esforço não compense.

“Com 20 ou 25 anos, quando estiver formado, ele não sabe comprar um sapato para vender ou avaliar o stock de uma loja. E se ninguém lhe der um emprego, se ele for médico e não o quiserem, se for um advogado e ninguém confiar nele? Vai ser um vagabundo? Vai ser pior do que se andasse ao negócio”, conclui.

Para quem permanece ligado às vendas, as vantagens da escola terminam muito cedo. Maria José Casa-Nova, investigadora da universidade do Minho, verificou em vários trabalhos de campo que “hoje em dia, praticamente todos os ciganos frequentam o primeiro ciclo, porque consideram essencial saber ler e escrever. A questão do manuseamento do dinheiro também é importante”. Aprendendo isto, “ a escola perde significado”.

Integração ou assimilação?
Há 20 anos a estudar a comunidade cigana, Maria José Casa-Nova acredita que o problema central está no próprio conceito de integração, pensado normalmente “de forma unilateral e subordinada”, sem ter em conta “o que é para esta minoria estar integrado”. A investigadora acredita que, se este não for um processo recíproco, trata-se de “assimilação”, porque “aquilo que se pretende é que este outro se torne semelhante a nós”, perdendo as suas características culturais.

Em 2008, Ano Europeu para o Diálogo Intercultural, a Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura correu o país para estudar a integração da população cigana e concluiu que “Portugal tem a opinião pública mais racista e estereotipada da União Europeia”.

Também o terceiro relatório da Comissão Contra o Racismo e a Intolerância do Conselho da Europa identificava, em 2006, uma presença marcada de estereótipos racistas entre a população portuguesa e recomendava a adopção de uma estratégia nacional para lutar contra a exclusão social dos ciganos.
Uma tarefa que implica construir pontes e, aos poucos, ir retirando à palavra cigano a conotação que carrega. No dicionário, ainda se define em registo informal como “trapaceiro, traficante, impostor”.

Fonte: http://www.rr.pt/
Published in: on setembro 23, 2010 at 6:04 pm  Deixe um comentário  

Menina cigana comove a Itália

Rebecca Covaciu é uma menina romena de etnia cigana. (Sobre)vive em Itália, onde os ciganos têm nos últimos anos sofrido perseguições desumanas. Aos 12 anos, tem já uma história de vida marcada pela marginalização e pelo sofrimento. Comoveu os italianos e, agora, em jeito de apelo, deixa um testemunho tocante à Europa.

O drama da pequena Rebecca começou quando a família deixou Arad (Roménia), ironicamente para fugir à pobreza e à discriminação. Em Itália, no entanto, os Covaciu têm sido alvo do ódio racial. Em Milão quase foram linchados por um grupo racista e a polícia destruiu por várias vezes os abrigos provisórios construídos pelo pai de Rebecca, Stelian, deixando a família a viver na rua. E só a ajuda de uma organização humanitária impediu Stelian, a mulher e os quatro filhos do casal de morrer à fome.

Seguiram-se depois Ávila (Espanha), Nápoles e, agora, Potenza, na região de Basilicata, Sul de Itália. Vários pousos, mas o mesmo denominador comum – uma vida de perseguições e de miséria. Já foi agredida pela polícia, viu o pai ser espancado para a defender, viu morrer outras crianças por falta de medicamentos e um acampamento de ciganos ser incendiado. Também já mendigou com os pais em Espanha e em Itália.

Agora, num vídeo intitulado ‘Querida Europa’, que será exibido no Parlamento Europeu, Rebecca, cujo sonho é ir à escola e que os seus pais tenham trabalho, deixa o apelo na primeira pessoa. “Quando eu crescer, quero ajudar os pobres e pintar o mundo dos ciganos. Ajudem–nos”, afirma Rebecca, que já ganhou um prémio de desenho da UNICEF.

A sua história está a emocionar os italianos numa altura em que o governo avança com um polémico censo da população cigana – iniciativa que se pretende alargar ao nível europeu, propondo a criação de um banco de DNA e impressões digitais de crianças ciganas.

Fonte: http://www.irohin.org.br/

Published in: on julho 19, 2010 at 10:03 pm  Comments (1)  

Dança Cigana atrai público em S. Bernardo

Base teórica unida à prática habilita os alunos

O contato com componentes da cultura cigana ainda é pouco explorado, sendo tratado com receio pela maioria das pessoas. Porém, uma das vertentes dessa cultura mais conhecida, a dança cigana, pode ser encontrada por meio de aulas ministradas pelo professor Ávallos Ernandes Gutierrez de Mendonça, no bairro Demarchi, em São Bernardo. Os encontros ocorrem todas às terças-feiras, das 20:30 horas às 22:00 horas.

Na dança típica cigana, abordada neste curso, a mulher dança descalça, com saia rodada até o tornozelo, sem coreografia, direcionando-se muitas vezes pelo olhar do parceiro. “A dança cigana que ensino é típica, não coreografada. Primeiro explico historicamente sobre a cultura, para que o aluno passe a saber que o cigano é uma etnia, com características próprias, com língua (romani), com organização e costumes sociais, que trabalha, e não uma religião, como muitos acham. Depois foco na prática pela dança. Levo os alunos às festas, eventos e atividades extras”, explicou Ávallos, sobre seu método que já formou 150 alunos durante os oito anos nessa área.

Em seu trabalho, Ávallos também aplica um foco individual em cada aprendiz, mediando os bloqueios, como a timidez, com a meta no desenvolvimento humano. O público que costuma por esse curso é de faixa etária diversa, mas composto majoritariamente por mulheres. O curso é composto pela fase básica (12 meses) e pela fase avançada (24 meses). “No começo trabalho pontos específicos, como quadril, mãos e giros, depois acrescento instrumentos, dentre os quais estão o lenço, leque, pandeiro, fita, castanholas e punhal. Os alunos só se apresentam nos eventos após a conclusão do básico e de pelo menos quatro meses do avançado”, disse o professor.

Os ciganos ainda são vítimas de constante preconceito. Sobre uma das atividades extras Ávallos destacou um fato: “Nós fomos vestidos de ciganos para o shopping Metrópole, para observar como seriamos tratados pelos gadjos (não ciganos). Alguns olhavam com admiração, outros com desprezo. Durante todo o passeio fomos perseguidos por seguranças”.

Além de dar aulas, ele promove palestras e coordena o grupo Estrella de Sarah Kali, o qual já existe há oito anos. O grupo é formado por alunos e se apresentam em eventos culturais do ABC e São Paulo, como o “Revelando SP”, por meio da dança. “Geralmente o público que assiste se interessa e é bastante receptivo, como na apresentação no CAPS (Centro de Atendimento Psicosocial), no Paço”. Ávallos já ofereceu este curso gratuitamente no Juventude, pela Prefeitura de São Bernardo, até o início deste ano.

Quatro alunos desse projeto continuaram com as aulas no Demarchi, como a estudante de Psicologia, Taís Fecher Gashler. Ela pesquisa a cultura cigana desde a adolescência: “Em sites de relacionamento pude conversar com ciganos e pessoas que conhecem o tema, tanto que encontrei uma moça que faz aula comigo”. A estudante indicou para interessados no assunto o livro “Enterrem-me em pé”, da norte-americana Isabel Fonseca, sobre a história, identidade complexa e expansões dos ciganos.

Em relação aos benefícios, ela citou: “O professor trabalha em cima das nossas dificuldades, facilidades e jeito de lidar com as situações. Trabalhando o corpo, consequentemente trabalhamos nossos bloqueios”. Dentre os costumes ciganos, Taís destacou: “O que mais admiro nos ciganos é o respeito que eles têm aos idosos, pedindo conselhos, e a consideração pelas crianças, as primeiras a serem alimentadas e vestidas”.

JARIZA RUGIANO

Published in: on maio 14, 2010 at 12:04 pm  Deixe um comentário  

De Nova York a Bucareste – Por que ignoramos os ciganos, que também foram vítimas do Holocausto?

por Gustavo Chacra

09.abril.2010

Os Romas, como são oficialmente conhecidos os ciganos (gypsies, em inglês), celebraram ontem a sua data nos Estados Unidos. E as comemorações não receberam atenção nenhuma, a não ser da secretária de Estado Hillary Clinton. Afinal, os ciganos são praticamente ignorados e quase ninguém no mundo luta pelos direitos deste povo. No Holocausto, eles também foram levados para campos de concentração e eliminados em escala industrial pelo regime nazista. Mas ficaram sem indenização ao perderem as suas posses e seus parentes. Não há memorial para eles. Os ciganos tampouco possuem um Estado, apesar de serem minorias expressivas em países do Leste Europeu, como a Romênia.  Não vemos movimentos internacionais como os existentes pela criação da Palestina, de Kosovo, de Timor Oriental ou do Curdistão. Os ciganos são perseguidos na Itália e na Suíça, mas poucos se preocupam em defendê-los, ao contrário do que ocorre com imigrantes ilegais de nações africanas.

Não sabemos quase nada sobre os ciganos, ou romas. Há estereótipos, como o de que eles trapaceiam ao dizer que lêem o futuro com bolas de cristais, que roubam pessoas em estações de trem, que agridem suas mulheres. Seriam também nômades que montam suas tendas por onde passam, consumindo bebidas indiscriminadamente. Os ciganos, ou romas, não são uma religião, mas um povo com uma cultura particular. Muitos se destacam nas arte, na literatura e na música, mas também existem médicos, advogados e outros profissionais.

Um dos problemas, segundo o educador alemão Mairele Krause, é que os ciganos, por sofrerem com a perseguição, estabeleceram uma cultura de segredo e proteção que torna difícil entendê-los e estudá-los. David Mayall, um acadêmico que escreveu a história dos ciganos nos últimos 500 anos, afirma ser difícil definir uma identidade para este povo, pois elas são múltiplas.

No site do Centro de Defesa de Direitos dos Romas, na Europa, fiquei sabendo que as crianças ciganas são discriminadas em escolas da Croácia, ao serem colocadas em classes separadas. O governo eslovaco também defendeu que eles estudassem em colégios a parte do restante da população. Na Hungria, foram 45 ataques violentos contra os ciganos em 2009, que também foram vítimas de agressões na Itália. Muitos foram expulsos de suas casas em Milão. A França também desrespeita o trânsito de ciganos, inclusive os que são cidadãos europeus.

Os Estados Unidos estão desenvolvendo uma série de programas para ajudar os ciganos ao redor do mundo. Afinal, como diz Hillary Clinton, “temos que nos lembrar com orgulho dos atos corajosos de homens e mulheres que se recusaram a permanecer em silêncio diante do extermínio cometido pelo regime nazista”. Aliás, os ciganos denominam o Holocausto como Porrajmos.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/

Published in: on abril 9, 2010 at 3:39 pm  Deixe um comentário  

Ciganos mantêm tradições no Jd. Silvina

Do Diário do Grande ABC

Um grupo de ciganos vive há oito anos em um acampamento montado às margens da Via Anchieta, no Jardim Silvina, em São Bernardo. Enquanto tentam manter as tradições milenares do povo, eles se adaptam à vida moderna. As tendas, cobertas por lona colorida, abrigam tecidos artesanais e eletrodomésticos novos. As crianças frequentam a escola do bairro, e quase todos os adultos já tiraram seus documentos. Festivo e receptivo, o grupo costuma passar o fim de semana comendo churrasco e ouvindo forró no som do carro.

O Diário visitou o acampamento cigano dia 20, domingo, durante a festa de casamento de Mauro Soares Ferreira e Chiara Bolsanello, ambos de 18 anos. As mulheres usavam vestidos coloridos feitos sob medida por ciganas de outros acampamentos, colares e pingentes. A comemoração só não foi mais alegre porque a comunidade ainda está de luto pela morte do seu líder, Donizete Soares, 58, conhecido como Oripe, há dois meses.

Seguindo a tradição, os integrantes do clã queimaram a tenda onde Oripe vivia, com suas roupas e objetos pessoais dentro. “Os bombeiros chegaram a vir aqui pensando que era incêndio”, conta Júlio Soares, 37, genro de Donizete e cotado para ser o novo líder do grupo. Porém, os agentes não apagaram o fogo, em respeito ao costume.

Otelina Mendes, 60, casada com Oripe desde os 10 anos, ficará de luto para sempre: cortou os cabelos e não usará mais roupas coloridas. “Perdi meu velho, minha tenda… tudo”, lamenta Otelina.

Comerciantes – A matriarca do grupo passou a morar na casa da filha Vanusa Mendes, 25, e do genro Flávio Mendes, 27, que trabalha, como a maioria dos ciganos, vendendo de tudo um pouco.

“As mulheres leem mão e os homens fazem negócio: de carro, celular, tecido. Não faz parte da tradição cigana ter patrão”, explica Flávio. Os ciganos de São Bernardo são da etnia calon, originária do Egito – outro grupo é chamado ron. Mesmo que não se conheçam, eles se identificam por meio de um sinal que fazem com tinta verde no rosto e nos braços e pelo dialeto.

“Nós falamos o chibi de calon, que ensinamos de pai para filho e só é entendido por cigano. Serve para quando vamos negociar alguma coisa”, afirma Flávio.

Outra fonte de renda dos calon é o aluguel de casas. Otelina tem um imóvel em Itapetininga, no Sudoeste do Estado, onde o grupo já morou. Os calon do Jardim Silvina têm parentes em Assis e Sorocaba, no Interior, e no Itaim Paulista, Zona Leste da Capital.

O grupo foi parar em São Bernardo por insistência do líder Oripe. “Aqui é bom para ganhar dinheiro”, diz Flávio. A permanência da comunidade foi acordada com o dono do terreno.

Casal de noivos foge à regra e se conhece pela internet
Diz a tradição cigana que os casamentos devem ser combinados enquanto os futuros noivos ainda são bebês. “Tentamos fazer com que as crianças se agradem, que se gostem desde pequenas”, diz Júlio Soares, 37 anos, um dos integrantes do clã.

Mas nem sempre isso é possível. Um dos filhos de Júlio, por exemplo, Mauro Soares Ferreira, 18, não quis passar o resto da vida com a mulher que era prometida a ele e conheceu a cigana com quem se casou no dia 20 pela internet.

“Casar sem amor não adianta”, ensina o pai. “Não sou eu nem minha mulher que vai viver com ela (a noiva). É meu filho”, conclui. A prometida, filha de um cunhado de Júlio, não mora no acampamento de São Bernardo.

Após descobrirem que Mauro conhecera a noiva pela internet, Júlio e sua mulher, Joana Soares Ferreira, 33, foram buscar a futura nora em um clã cigano na cidade de Medeiros Neto (BA). Eles enfrentaram uma viagem de dois dias para ir e mais dois para voltar dentro de um ônibus.

Mauro e Chiara Bolsanello, 18, se casaram domingo passado com as bênçãos das duas famílias. “Vamos ficar aqui por um mês e depois vamos para a cidade dela passar um tempo”, disse Mauro após a cerimônia.

Casamentos e batizados são celebrados por padre católico
Embora não exista uma religião oficial para todos os ciganos, muitos deles seguem o catolicismo. Os calon que vivem em São Bernardo, por exemplo, batizam seus filhos e casam dentro dos fundamentos da igreja católica.

Para celebrar os sacramentos, nos últimos anos eles contam com o padre Jorge André Pierozan, conhecido como Padre Rocha. O apelido tem pelo menos duas versões. “Deram-me esse nome quando eu jogava futebol, por causa de um atleta da época”, diz o padre. “Ele é Rocha porque não deixa os calon na mão. É forte e sempre nos ajuda”, opina Júlio Soares, um dos ciganos do acampamento.

Integrante da Pastoral dos Nômades, Padre Rocha se desdobra para conciliar a agenda de sacerdote da Paróquia Santíssima Trindade, no Butantã, Zona Oeste da Capital, e os compromissos nos acampamentos ciganos.

“Quem mora em tenda tem a fé mais forte do que quem mora em palácio. Aqui, eles não têm paredes para se proteger, eles jogam na mão de Deus”, afirma.

A ligação do pároco com os ciganos vem da infância, quando foi vizinho de um acampamento e trapezista de circo. “Um dia ainda me aposento e vou morar na tenda também.”

Published in: on março 9, 2010 at 10:37 pm  Comments (2)  

Sulukule

O bairro turco do Sulukule é o mais antigo bairro cigano do mundo, fica na Turquia, na cidade de Istambul, e esta sendo ameaçado por uma nova política do governo. Essa política prevê a REMOÇÃO e demolição do bairro inteiro pra contrução de praças de evento. Os Roms estão sendo obrigados a vender suas casas por preços bem abaixo do mercado. Eles seriam relocados para um campo de barro no distrito de Taşoluk, a 40km da capital, sem nenhuma infraestrutura, longe de onde eles conseguem sua subsistência a séculos, o que acabaria separando-os também. A UNESCO exigiu que o governo turco reveja sua colocação e resolva o problema junto a comunidade Romani. É um problema que se arrasta desde 2005, mas que agora parece mais perto de um final triste para os roma. Indico o site oficial, com a lista de assinaturas do manifesto contra esta ideia absurda, para que se possamos ajudá-los.

http://www.alternatifsulukule.org/manifest.aspx

Published in: on fevereiro 17, 2010 at 8:33 am  Deixe um comentário  

Reportagem Superinteressante

A Revista Superinteressante divulgou em Setembro de 2008 uma reportagem sobre os ciganos.

A matéria toda está em http://super.abril.com.br/cultura/saga-cigana-447715.shtml

Aqui vai uma parte dela, com algumas curiosidades.

Vale lembrar que nenhuma informação pode ser tomada cpom 100% confiável ou aplicável à etnia inteira.

Mas vale ler!

Iguais, mas diferentes

Quem são os 3 principais grupos ciganos

Rom ou Roma

Predominantes nos países balcânicos, principalmente na Romênia, falam romani, a mais conhecida das línguas ciganas, e são o grupo mais estudado pelos pesquisadores. São divididos em subgrupos: kalderash, matchuaia, curcira, entre outros. Consideram-se os “ciganos autênticos”.

Sinti

Também chamados de manouch, são mais numerosos na Itália, no sul da França e na Alemanha. Falam a lingua sintó, para alguns pesquisadores, uma variação do romani. Não há estudos que apontem a presença significativa desse grupo no Brasil.

Calon ou Kalé

Conhecidos por “ciganos ibéricos”, já que viviam na Espanha e em Portugal antes de se espalhar pelo resto da Europa e da América do Sul. São os criadores do flamenco e responsáveis pela popularização da figura da dançarina cigana. Falam a língua caló e são o grupo mais numeroso do Brasil.

Verdade ou mentira?

A origem das histórias do imaginário cigano

Ciganas lêem a sorte

Amparados pelo mistério que os rodeava, os ciganos perceberam que poderiam utilizar a curiosidade dos povoados sobre o futuro como um modo de fazer negócio e ganhar dinheiro. A crença virou parte da cultura cigana. Hoje, as ciganas lêem até mesmo a sorte de outras mulheres do grupo, mas, nesse caso, sem dinheiro envolvido.

Ciganos roubam crianças

Essa crença pode ter vindo do hábito dos ciganos de circo de incorporar à trupe crianças órfãs ou abandonadas que se encantavam pelo seu estilo de vida. Mas o mais provável é que o medo daquele povo desconhecido o tenha transformado em uma espécie de bicho-papão para os europeus.

Ciganos são negociantes

É possível que sua vida errante tenha favorecido atividades relacionadas ao comércio. Além de terem acesso a objetos “maravilhosos” dos lugares por que passavam, conseguiam carregar a sua forma de sustento numa mala sempre que precisavam levantar acampamento.

Ciganos são trapaceiros

Na Idade Média, aquelas pessoas exóticas e desconhecidos eram vistas como bruxas (muitas foram queimadas durante a Inquisição). A vida à margem da sociedade muitas vezes os empurrava à criminalidade. As outras formas que encontravam para ganhar dinheiro – comércio e leitura de mãos – colocavam à prova sua honestidade. Essa confluência de fatores pode ter criado a imagem do cigano trapaceiro.

Ciganos falsificam ouro

Tradicionalmente, muitos grupos ciganos dominam o trabalho com metais. Algumas etnias carregam isso até no nome, como os kalderash (“caldeireiros”, em romani). No Brasil, os ciganos participaram da exploração de minas de ouro no século 18. Junte-se tudo isso à fama de trapaceiros e fica fácil entender a crença de que eles falsificam metais.

Ciganos honram a palavra

Como são um povo sem escrita, as leis ciganas são regidas com base na palavra dada. O não-cumprimento de uma regra ou de um acordo representa uma grande ofensa à sociedade cigana, e quem o faz é desmoralizado perante o grupo.

Para saber mais

Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil

Frans Moonen, Centro de Cultura Cigana, 2008.dhnet.org.br/direitos/sos/ciganos/index.html

História do Povo Cigano

Angus Fraser, Teorema (Portugal), 1997.

Published in: on janeiro 1, 2010 at 11:30 am  Deixe um comentário